saboresesaberesvaldelyNos dias 30 e 31 de agosto, o CCS sediou a 9ª edição do Encontro Sabores e Saberes, organizada através de uma parceria que envolve o Instituto de Nutrição Josué de Castro (INJC), o Sistema de Alimentação da UFRJ e a Agência UFRJ de Inovação. O tema central desta edição foram as “Plantas alimentícias não convencionais (PANC)”.

A solenidade de abertura contou com uma mesa composta por Glória Valéria da Veiga, diretora do INJC, Maria Fernanda Quintela, decana do CCS, Elizabeth Accioly, coordenadora do evento, Carla Diaz, superintendente de integração da PR-5, Luisa Ferrer, estudante de Biologia que integra o Projeto de Extensão Capim Limão, e Ricardo Pereira, coordenador da Agência UFRJ de Inovação.

Plantas alimentícias não convencionais

“Temos uma alimentação monótona e repetitiva 365 dias por ano. As nossas roças e lavouras são monoculturas e a gente retroalimenta isso. Cada um de vocês é parcialmente culpado pela monocultura no campo porque o seu prato é monótono. Você vai 52 vezes por ano à feira pra comprar as mesmas coisas. Você não aceita mudar seus hábitos alimentares.” Foi com um tom crítico que Valdely Kinupp, biólogo e professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas, iniciou sua conferência sobre o assunto que foi o tema da edição de 2017 do Encontro Sabores e Saberes.

Valdely é autor do livro “Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas”, escrito a quatro mãos com o botânico Harri Lorenzi. A obra apresenta plantas nativas e exóticas que, apesar de não serem facilmente encontradas nas feiras ou balcões de mercados, são próprias para o consumo. Exemplos não faltam. Bertalha, serralha, caruru, vinagreira, vitória régia, ora-pro-nobis, dente-de-leão, maria-sem-vergonha, jenipapo são apenas algumas das 351 espécies de plantas não convencionais citadas pelo professor em seu livro ao longo de 1053 receitas ilustradas.

“As PANC são plantas que as pessoas não reconhecem como alimentos. Se elas não estão disponíveis no mercado com uma mínima regularidade, ainda que seja sazonal, na minha concepção, são plantas não convencionais”, explicou.

O acrônimo cunhado por Valdely também contempla as plantas alimentícias convencionais que têm partes alimentícias não convencionais, sejam as flores, folhas, o pólen, o rizoma, o caule, a haste, o látex, enfim, tudo aquilo que se pode consumir de forma sólida ou líquida. Muitas dessas plantas caíram em desuso na alimentação humana por causa de modismos temporários, influência da mídia e interesses econômicos. Mas ignorar ou subestimar estas possibilidades em nossa dieta tem consequências que geram um impacto direto em nosso cotidiano, ainda que muitas vezes não nos demos conta.

“Se você tem um prato monótono, você não pode reclamar da monotonia do campo. A nossa agricultura foi simplificada. E a monotonia do campo, a monoatividade, a monocultura, obviamente vai gerar impacto ambiental por demandar grandes quantidades de agrotóxico, além de uma motomecanização pesada que, por sua vez, gera êxodo rural”, avaliou Valdely Kinupp.

De fato, o Censo 2010 do IBGE apontava que a população rural brasileira é de apenas 15,6% do total da população, diante de uma população urbana que já chega a 84,4% do total. Tão alarmante quanto esta desproporção populacional são os dados relativos ao uso de defensivos agrícolas.

Para se ter ideia, desde 2008, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos. Enquanto nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, no Brasil o crescimento foi de 190%, de acordo com dados divulgados pela Anvisa.

A principal bandeira da utilização dos agrotóxicos é, ainda hoje, a ampliação sem precedentes da oferta de alimentos convencionais. Entretanto, este aumento de produtividade também camufla milhares de casos de intoxicação, bem como os efeitos da degradação do solo, o que acaba por retardar a introdução de práticas ecologicamente mais adequadas. Uma delas é justamente o consumo das PANC.

Felizmente, neste sentido a natureza não negou alternativas ao Brasil. Para se ter ideia, estima-se que haja no mundo em torno de 30.000 espécies de plantas com potencial uso alimentício, dentre as quais no mínimo 10.000 são nativas do país. É verdade que apenas uma porcentagem reduzidíssima desta rica diversidade acaba chegando às feiras e supermercados. Segundo Valedely, usamos apenas 0,04% desta riqueza, que representam a média de 150 plantas usualmente comercializadas por aqui.

A solução, aos olhos do professor, reside numa velha lei da economia: “Trata-se de uma questão de oferta e procura. Hoje nós comemos muito de poucas coisas. O homem acabou optando pela especialização em vez da diversificação alimentar. Repensar nossos hábitos também tem o condão de gerar uma demanda induzida para fugir desta restrição alimentar”.

Outra questão importante para ele é que o país conquiste o que chama de “soberania alimentar”. “O Brasil é o país da mega fitodiversidade. Muito se fala sobre biopirataria, mas nós só comemos plantas da Europa ou da Ásia. Além do imperialismo cultural, também sofremos com um imperialismo gastronômico alimentar. No mínimo 52% das espécies consumidas em larga escala no país são de origem euroasiática”, comentou.

Apesar disso, por conta de iniciativas como a da recente edição do Encontro Sabores e Saberes, que demonstram um aumento das discussões acerca das PANC, o professor já consegue enxergar o embrião de uma mudança de postura. “Nunca se falou tanto em PANC neste país. Este termo está saindo muito da boca das pessoas. A questão agora é a conscientização para que as PANC entrem em suas bocas”, brincou.

Os interessados em se aprofundar no tema podem conferir a palestra na íntegra aqui.

Farinha nutritiva à base de banana

Um exemplo de PANC citado por Valdely Kinupp em sua apresentação é o mangará, também conhecido como “coração de bananeira”. Conforme comentou: “Todo mundo conhece a bananeira como uma planta frutífera, mas ainda hoje poucos brasileiros têm consumido com regularidade o ‘umbigo de bananeira’, o ‘coração de bananeira’, que é uma delícia. Dá pra fazer estrogonofe, recheios de torta, de pastéis, bolos. Poderia estar todos os dias em nossos pratos”.

O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de banana, fruta de cultivo simples, de colheita permanente durante o ano e de rica composição nutricional. Para se ter ideia, atualmente, a bananeira é cultivada em todos os estados brasileiros. Apesar disso, a inflorescência da banana é descartada durante a separação do cacho para comercialização da fruta, mesmo contendo índices de nutrientes e de minerais muito superiores àqueles apresentados pela casca e pelo próprio fruto. Este é um típico caso de desperdício que, apesar de ser desnecessário, acaba dando margem a uma nova possibilidade de negócio.

 

farinha nutritiva a base de banana

A Agência UFRJ de Inovação tem em seu portfólio de patentes uma invenção relacionada a isso. Trata-se da “farinha nutritiva à base de banana”, uma farinha natural obtida de inflorescências desidratadas da bananeira. A proteção intelectual da UFRJ também engloba o seu processo de produção. Por conta de seus elevados teores de fibras e minerais (potássio, fósforo, cálcio, magnésio, sódio, manganês, zinco, ferro e cobre), o uso dessa farinha é voltado para a complementação alimentar de mamíferos humanos ou não humanos.

Os interessados em conhecer mais sobre esta tecnologia que está disponível para licenciamento ou parcerias que visem inseri-la no mercado produtivo podem entrar em contato através do email Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

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