temposcompulsivos

 

Em 10 de agosto, o Parque Tecnológico da UFRJ promoveu uma palestra ministrada por Sandra Edler, mestre e doutora em Teoria Psicanalítica pela UFRJ, que recentemente lançou, pela editora Casa da Palavra, o livro “Tempos compulsivos: a busca desenfreada pelo prazer”. O evento foi o segundo encontro do programa Trajetória X, que se propõe a discutir questões de gênero no ambiente de trabalho e no universo do empreendedorismo.

Em sua recente obra, a psicanalista estabelece uma relação entre nosso modo de vida e o crescimento de compulsões pelos mais variados elementos, como alimentos, exercícios, dinheiro, compras, uso da internet, jogos, sexo e até mesmo trabalho.

Antes de chegar às compulsões propriamente ditas, Sandra realizou uma série de abordagens sobre a questão do tempo. Ela esmiuçou, por exemplo, as diferenças entre o tempo cronológico e o conceito de tempo subjetivo. “O tempo cronológico é aquele que pode ser mensurado, é aquele que remete ao Cronos, o tempo inexpugnável que rege os destinos e a tudo devora. Já o tempo subjetivo é o tempo interno, é aquele que guarda relação com o estado de ânimo do indivíduo. Existem momentos em que dois minutos podem parecer uma vida inteira, ao contrário dos períodos de férias, que quase sempre percebemos que passam rápido demais”, explicou.

Ela comentou que uma queixa recorrente nos consultórios hoje em dia é a de que “o tempo é curto”, de que “a vida não cabe nas 24 horas do relógio”. Pesadas rotinas de trabalho, compromissos presenciais e virtuais, listas intermináveis de tarefas que dificilmente conseguem ser cumpridas acabam produzindo pessoas exaustas, sobrecarregadas e, não raramente, frustradas.

“Antes o homem era obediente ao ciclo da natureza, dormia ao escurecer e despertava ao raiar do dia. Hoje subvertemos a noção de dia e noite e usamos, indistintamente, os dois espaços em nossas atividades e lazer”, comentou.

A mudança foi fruto da Revolução Industrial, quando a velocidade das máquinas e da produção invadiu a rotina dos homens, impondo extrema aceleração na maneira de viver. Isso se acentua ainda mais no século XXI com o alto desenvolvimento tecnológico e das comunicações. E estas transformações trouxeram consigo consequências internas que aparecem nos sujeitos na forma de depressões, quadros de violência e como sintomas que são justamente as compulsões.

Na entrevista a seguir, a autora de “Tempos Compulsivos” explora um pouco mais estas questões:

1) De uma forma geral, o que podemos entender por compulsão?

A palavra compulsão sugere coerção, estar compelido a repetir incessantemente, sem a possibilidade de escolha e até mesmo contra a vontade consciente do sujeito. Uma condição de aprisionamento que nem sempre se mostra clara no início. Muitas vezes começa com uma busca por algo prazeroso e, depois de algum tempo, torna-se necessária para que o sujeito continue a viver.

2) Você comentou que uma reclamação cada vez mais frequente nos consultórios psiquiátricos é: "eu não tenho tempo". Em seu recente livro, é feita uma correlação entre os quadros compulsivos e a noção de tempo. Como funciona esta relação?

Traço essa correlação porque cada tempo tem uma marca, um sintoma social. Vivemos um tempo de tanta velocidade e atropelo que facilmente o sujeito cai numa rotina vertiginosa e passa a agir como um autômato, um “zumbi” como muitos depoimentos revelam. Não é difícil nesses "Tempos Compulsivos" desenvolver uma compulsão. Abordo no livro várias condições sociais que abrem espaço à ampliação desses quadros.

3) Quais são os quadros compulsivos mais usuais atualmente?

Dentro da minha pesquisa e experiência clínica aparecem compulsões ligadas à internet (jogos, uso ininterrupto levando a prejuízos na saúde), sexo, distúrbios alimentares de diversos tipos e compulsões ligadas ao uso de álcool e drogas. Noto também ampliação na compulsão às compras.

4) O século XXI parece marcado por um fenômeno que encontra ancoragem nas novas modalidades de mídia: a superexposição. Nossos universos particulares nunca foram tão amplamente visíveis e deliberadamente publicizados. Não mais basta ter. É preciso mostrar que se tem. Não mais basta ser. É preciso mostrar que se é. Neste sentido, as redes sociais de internet despontam como novas arenas para a busca dos “quinze minutos de fama” tão difundidos no imaginário coletivo moderno. Como você avalia o uso que tem sido feito destas ferramentas? Esta ânsia pela visibilidade pode ser considerada uma forma de compulsão?

A virada do século acentuou de maneira significativa o fenômeno da superexposição. A cultura da imagem, a cultura do parecer. Parecer para existir. A internet é uma ferramenta poderosa, capaz de mobilizar grande contingente de pessoas, promover campanhas, levantar recursos e possibilitar grandes causas para o bem comum. No entanto, dado o alto grau de narcisismo que impera na cultura, muitas vezes fica a serviço da exposição de vaidades e, por vezes, mesmo das futilidades do dia-a-dia. Muitas pessoas que visam apenas seus quinze minutos de fama encontram nesse veículo um meio ideal para se promover. Essa modalidade de compulsão foi definida pelo filósofo alemão C. Türcke (Sociedade excitada) e significa postar, responder rapidamente para estar sempre presente nas redes, alimentando o narcisismo e a onipotência.

5) Até que ponto é possível dizer que o narcisismo é uma fonte de compulsões?

O narcisismo está muito associado aos problemas contemporâneos e é alimentado pela cultura do consumo. A compulsão às compras, por exemplo, está associada. A compulsão em retocar constantemente a imagem através de cirurgias e procedimentos estéticos também. Tudo o que se refere ao desespero com a imagem guarda, de uma forma ou de outra, relação com o narcisismo.

6) Como é possível se recuperar de um quadro compulsivo?

Para procurar recuperação de um quadro compulsivo o sujeito deverá buscar ajuda de preferência especializada. E há farto material disponível na internet, junto a grupos de ajuda mútua, palestras, movimentos inclusive gratuitos. Como psicanalista indico, de preferência, o atendimento psicanalítico que por vezes pode não ser o único. Dependendo do contexto poderá haver necessidade de atendimento médico, assistência à família, com a presença de outros profissionais e equipe multidisciplinar.

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